AcervoPlínio Marcos · 1935-1999Biografia

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Dados biográficos

Uma vida

De palhaço de circo a maior dramaturgo do avesso do Brasil. A vida de Plínio Marcos, contada capítulo a capítulo, com a voz dele no centro.

A família de Plínio Marcos
A família de Plínio Marcos.

Origens

Plínio Marcos de Barros nasceu em Santos, em 29 de setembro de 1935, e faleceu em São Paulo, em 19 de novembro de 1999. Filho de um bancário (Armando) e de uma dona-de-casa (Hermínia), tinha quatro irmãos e uma irmã.

“A gente veio de origem mais ou menos humilde, mas minha infância foi muito feliz, pelo menos foi muito despreocupada. Morava numa vila de pequenos bancários, na Rua das Antigas Laranjeiras, e foi nessa vila que me criei. A única dificuldade que eu tinha era exatamente o colégio. Eu não suportava a escola. Levei quase dez anos para sair do primário. E quando saí já não dava mais para continuar estudando.”

“Então meu pai me botou de aprendiz de encanador. E eu acabei ficando funileiro. A minha profissão mesmo é funileiro, é o que consta no meu certificado de reservista.” Seu pai, que era espírita, também o colocou para vender livros numa banca de livros espíritas numa praça de Santos. Entre suas múltiplas atividades, inclui-se, ainda, a de estivador no cais do porto de Santos.

“Queria mesmo era ser jogador de futebol. Cheguei até a jogar no juvenil da Portuguesa Santista, no Jabaquara.” Começou a jogar na várzea santista, como ponta-esquerda, e era tido como bom jogador.

O palhaço Frajola, no circo
O palhaço Frajola, no circo.

Circo e teatro amador

Começou a vida profissional como palhaço de circo. “Eu queria namorar uma moça do circo. O pai dela só deixava ela namorar gente do circo. Então eu entrei para o circo.”

“Eu tinha o apelido de Frajola, não porque andasse bem vestido, mas porque tinha saído uma revista em quadrinhos, com um gato chamado Frajola, que sempre queria pegar um passarinho. E eu fui preso roubando um passarinho numa casa, na ocasião em que saiu a revista.” Em 1953, percorria o interior paulista com a Companhia Santista de Teatro de Variedades, atuando como palhaço e humorista.

“Trabalhei em todos os circos, no Circo dos Ciganos, no Circo do Pingolô e da Ricardina, no Circo Toledo, Circo Rubi. O primeiro pavilhão em que trabalhei foi o Pavilhão-Teatro Liberdade, que ficou armado cinco anos em Santos, dando espetáculos todas as noites.”

Em 1958, conheceu Patrícia Galvão, a Pagu, ao substituí-la num ator de uma peça infantil. “Quando encontrei a Pagu, conheci um grupo de intelectuais raríssimo. E recebi uma forte influência desse grupo. Todos os domingos a Pagu fazia o Geraldo Ferraz ler uma peça pra nós. Peças como Esperando Godot.” Trabalha então como ator e diretor no teatro amador santista.

Barrela, montagem estudantil
Barrela, montagem estudantil.

Barrela

“Houve um caso, em Santos, que me chocou profundamente: um garoto foi preso por uma besteira e, na cadeia, foi currado. Quando saiu, dois dias depois, matou quatro dos caras que estavam com ele na cela. Fiquei tão chocado com esse negócio todo que escrevi a Barrela.”

“Escrevi em forma de diálogo, que era o que eu mais conhecia, mas não me preocupei com os erros de português. Imaginei o que se passara no xadrez, coisas que eu conhecia bem de tanto escutar histórias na boca da malandragem. E dei o nome de Barrela, que é a borra que sobra do sabão de cinzas e que, na época, era a gíria que se usava para curra.”

Pagu levou Barrela para Pascoal Carlos Magno, que realizava o Festival Nacional de Teatro de Estudante em Santos. O texto foi enviado à Censura Federal, que o proibiu. Liberado por interferência do gabinete da Presidência, foi apresentado uma única vez, em 1º de novembro de 1959, no Centro Português de Santos, ficando depois proibido pela Censura Federal por vinte e um anos.

Plínio e Walderez de Barros
Plínio e Walderez de Barros.

Começo em São Paulo

“Vim pra São Paulo de vez em 1960. Aqui, a primeira viração foi vender coisas de contrabando. Fiquei um tempão trabalhando de camelô. Pegava no Largo do Café e vendia na esquina. Depois, vi o pessoal do Teatro de Arena, porque eu parava no Bar Redondo.”

“Foi anunciado um teste para a Companhia Cacilda Becker, para a peça César e Cleópatra, que o Ziembinsky ia dirigir. Fui lá, fui aprovado. Fazia várias pontas. Ficamos muito, muito amigos mesmo.”

“Nunca tive esse negócio de ser de um grupo, trabalhava onde me deixavam. Eu tinha que trabalhar, viver de uma profissão, e a minha profissão era essa: teatro.” Em 1965, sua primeira peça em São Paulo, Reportagem de um Tempo Mau, foi proibida pela Censura no Teatro de Arena.

“Ser impedido de trabalhar, de ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto é terrível. Você tem a sensação de que é um exilado no seu próprio país. Fui camelô. Voltei pra rua pra camelar. Não caí. Não bebi. Não chorei. Nem perdi o bom-humor.”

Ademir Rocha e Plínio Marcos em Dois Perdidos numa Noite Suja
Ademir Rocha e Plínio Marcos em Dois Perdidos numa Noite Suja.

Dois Perdidos numa Noite Suja

“Então, escrevi Dois Perdidos numa Noite Suja para eu mesmo representar. Ator pequeno, sem nome, sem carreira, trabalhando de técnico na Televisão Tupi, ninguém convidava pra nada. Então escrevi uma peça com papel pra mim.” Uma peça de dois personagens, inspirada num conto de Moravia.

“Cinco pessoas foram assistir à estréia. Aí, o Roberto Freire começou a fazer uma onda em torno, dizendo que a peça era muito boa, e outra vez voltei a ser notícia como autor teatral. A Cacilda Becker, quando viu a peça, comentou: Incrível! Você conhece dez palavras e dez palavrões, e escreveu uma peça genial.”

Dois Perdidos foi liberada porque, naqueles dias, a Censura passou da Polícia Estadual para a Federal. O censor Coelho Neto, homem de teatro, assistiu ao ensaio num estúdio abandonado da Tupi e liberou o texto sem cortes.

Navalha na Carne, no Teatro Opinião
Navalha na Carne, no Teatro Opinião.

Navalha na Carne

Com Navalha na Carne seria diferente. Já ensaiada em São Paulo, com Ruthnéa de Moraes, Paulo Vilaça e Edgard Gurgel Aranha, veio a proibição da Censura Federal. Cacilda Becker ofereceu seu teatrinho na Avenida Paulista, iniciando um movimento nacional pela liberação da peça.

“Fomos depois para o Rio de Janeiro. A apresentação seria no Teatro Opinião. O Exército cercou o teatro. A Tônia Carrero comprou a briga. Levou a apresentação pra uma casa vazia que ela tinha no morro de Santa Teresa. Pra despistar, fiquei dando entrevista aos jornalistas, enquanto o povo ia saindo sem alarde. A casa ficou lotadinha.”

“E Tônia liberou a peça. Foi preciso muita coragem. Precisou jogar na mesa todo seu prestígio. Precisou encarar uma briga feia com seus parentes generais. Mas, ela ganhou e estreou.”

Plínio Marcos
Plínio Marcos.

Censura

Após 1968, o teatro de Plínio Marcos era sistematicamente censurado. Até Dois Perdidos e Navalha na Carne, já apresentadas pelo país, foram interditadas em todo o território nacional. Na década de 70, era o próprio símbolo do autor perseguido, um maldito, que incomodava a ditadura.

Foi preso pelo 2º Exército em 1968 e, em 1969, preso em Santos, no Teatro Coliseu, por se recusar a acatar a interdição de Dois Perdidos numa Noite Suja. Transferido para o DOPS em São Paulo, saiu por interferência de vários artistas.

“Um filho-da-puta de um censor, num dia em que eu perguntei por que todas as minhas peças estavam proibidas, ficou nervoso: Porque suas peças são pornográficas e subversivas. Mas por quê? São pornográficas porque têm palavrão. E são subversivas porque você sabe que não pode escrever com palavrão e escreve.”

“Eu não fazia nenhuma pesquisa de linguagem. Escrevia como se falava entre os carregadores do mercado. Como se falava nas cadeias. Como se falava nos puteiros. Há dezessete anos pago o preço de nunca escrever para agradar os poderosos. A solidão, a miséria, nada me abateu. Eu estou no campo. Não corro. Não saio. E pago qualquer preço pela pátria do meu povo.”

Plínio Marcos autografando seus livros
Plínio Marcos autografando seus livros.

Literatura

“Eu fui escrever literatura porque a censura não estava liberando nenhuma peça minha. O Querô ia ser mais uma peça de teatro. Só escrevi em forma de romance porque não achei que iria passar na censura.” Uma Reportagem Maldita, Querô, publicado em 1976, ganhou o Prêmio APCA de melhor romance do ano.

Desde 1968 tinha uma coluna diária no jornal Última Hora, SP, onde trabalhou até 1978. Assinou colunas no Diário da Noite, Folha de SP, Movimento, Diário Popular; escreveu crônicas de futebol na revista Veja.

“Não tem tu, vai tu mesmo. Eu ia vendendo meus livros nas ruas, feiras de livros, nas portas dos teatros, nos restaurantes. Não é fácil vender livros em terra de analfabeto com fome. A maioria das pessoas reconhecia que aquilo era uma forma de resistência. Eu incomodava mesmo. Era perseguido, mas fiz por merecer.”

Capa do disco Nas Quebradas do Mundaréu
Capa do disco Nas Quebradas do Mundaréu.

Samba

Não foi importante apenas como escritor, mas como conhecedor e defensor da cultura popular brasileira. Sempre foi divulgador do trabalho de sambistas das Escolas de Samba de São Paulo.

Em 1970 escreveu e dirigiu Balbina de Iansã. Em 1974 lança o LP Plínio Marcos em Prosa e Samba: Nas Quebradas do Mundaréu, com os sambistas Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro, disco considerado fundamental para quem quer estudar o samba da cidade de São Paulo. Em 1972, fundou a primeira banda carnavalesca de São Paulo, a Banda Bandalha.

O Abajur Lilás, dia de ensaio
O Abajur Lilás, dia de ensaio.

O Abajur Lilás

A peça O Abajur Lilás foi escrita em 1969 e proibida por cinco anos para todo o território nacional. Em 1975, liberada, começaram os ensaios com Antônio Abujamra na direção e Lima Duarte, Walderez de Barros, Cacilda Lanuza e Ariclê Perez no elenco. No ensaio para a censura, o espetáculo, “belo, belíssimo”, foi proibido.

A classe teatral organizou manifestações de protesto; um manifesto contra a censura era lido em todos os teatros antes dos espetáculos. O advogado Iberê Bandeira de Melo levou o recurso, de instância em instância, até o Supremo Tribunal Federal.

“Perdemos em todos os lances. Com um, apenas um voto favorável. Havia um homem honrado entre os juízes, o Dr. Jarbas Nobre. Perdemos. Mas, era uma vitória. Eu voltei de Brasília certo de que tinha enchido o saco dos donos do poder. Cumpri com grandeza o meu papel.”

O Bando
O Bando.

O Bando

Em outubro de 1979, um grupo de atores se juntou para, clandestinamente, montar Barrela, que completava 20 anos de proibição. A peça estreou em dezembro, no porão do TBC, cedido por Antônio Abujamra. Todas as sessões, à meia-noite das sextas-feiras, lotaram.

Em 1980, Barrela e O Abajur Lilás foram liberadas pela Censura Federal. O BANDO, nome do grupo, prosseguiu na luta, distribuindo filipetas nas ruas todas as manhãs.

“É preciso tirar o homem comum da casa dele. É preciso inquietá-lo. Toda a nação brasileira precisa reaprender a conversar, depois de dezesseis anos de obscurantismo.” Somente Barrela foi assistida por mais de 60.000 pessoas, o que valeu a Plínio o Prêmio Mambembe de melhor produtor.

Plínio Marcos em cena
Plínio Marcos em cena.

Palestras e shows

A partir dos anos 80, intensifica os debates e palestras em faculdades, teatros, clubes e praças públicas, por inúmeras cidades do Brasil.

“No ano passado fiz 150 cidades. Acho que é muito mais importante você transmitir pessoalmente a sua experiência para o povo do que passar tudo somente através da arte. Eu sou povo, e com ele me sinto em casa. Sou um camelô da literatura. Vendo meus livros, dou autógrafos e prometo morrer logo para valorizar.”

Em 1984 estreia o espetáculo-solo O Palhaço Repete seu Discurso, no Teatro Eugênio Kusnet. Por muitos anos seguiu com palestras-shows para estudantes, muitas vezes acompanhado do filho Léo Lama.

Plínio Marcos, 1997
Plínio Marcos, 1997.

Religiosidade e tarô

“Sou um homem à procura da religiosidade. A religiosidade nada tem a ver com seitas, igrejas, fanáticos acorrentados a dogmas. A religiosidade é altamente subversiva. Leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão.”

Suas peças sempre foram carregadas de religiosidade: Dia Virá, Balbina de Iansã, Jesus-Homem. A partir do fim dos anos 70, interessou-se por esoterismo e tarô, criando um método próprio de leitura que aliava ao seu poder de magnetização.

“O Tarô eu aprendi naquele tempo de circo. O Tarô é uma arte subversiva. O que o Tarô faz mesmo é ajudar no autoconhecimento. Eu em nenhum momento estive à venda, e sempre defendi o direito de ser livre, e sempre fui.”

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