AcervoPlínio Marcos · 1935-1999Jornais

Início  /  A obra  /  Jornais

A obra · Imprensa

O repórter

Coluna diária, crônica de futebol, cobertura de Carnaval. Plínio Marcos dizia escrever teatro em forma de reportagem, e reportagem com alma de teatro.

Plínio Marcos na redação
Na redação.
Revista Folhetim
Na revista Folhetim.

Coluna Plínio Marcos · Folha de São Paulo · 23/7/1977

Um saltimbanco em busca do seu povo

Coluna diária de Plínio Marcos · artigo não publicado à época, proibido pela Censura

As cartas que me chegam são sempre importantes, são dos amigos, são as boas notícias de que há gente nesse mundo que acredita no que fazemos. De Paris, chega a confirmação de que Dois perdidos numa noite suja estréia mesmo lá em setembro. No Rio de Janeiro, o Juca de Oliveira e o Oswaldo Loureiro lotam o Teatro Opinião com Dois perdidos.

Tudo isso seria muito bonito, se o palco brasileiro fosse uma tribuna livre onde se pudessem discutir até as últimas conseqüências os problemas do homem. Mas, não é. E eu não tenho sossego. Por isso, não vou à França, nem à Espanha. Vou a Mococa, que é lá que eu bebo na fonte; vou a Orlândia, que é lá que eu me renovo. Longe das pompas, eu quero sempre me encontrar com o povo.

Ler o texto integral

As cartas que me chegam são sempre importantes, são dos amigos, são as boas notícias de que há gente nesse mundo que acredita no que fazemos. De Paris, chega a confirmação de que Dois perdidos numa noite suja estréia mesmo lá em setembro. Em Madri, na bela Espanha em que o nosso querido García Lorca gostaria de viver os seus romances gitanos, hoje a caminho de seu grande destino democrático, depois que a nuvem obscurantista do despotismo de Franco passou, me mandaram avisar que Navalha na carne será encenada lá. Entre os dramaturgos do povo, numa parede do Berliner Ensemble, um amigo brasileiro que esteve na Alemanha leu meu nome e me escreve comovido. No Rio de Janeiro, o Juca de Oliveira e o Oswaldo Loureiro lotam o Teatro Opinião com Dois perdidos e o Luiz Gustavo e a Sílvia Falkenburg se preparam para montar Quando as máquinas param.

Aqui em São Paulo, O poeta da vila e seus amores fica todas as noites a três de alto, com gente se agarrando pelos picos pra não espirrar pelo ladrão. E o meu livro Inútil pranto, inútil canto pelos anjos caídos sai pela Editora Lampião, no começo do mês que vem. Tudo isso seria muito bonito, se o palco brasileiro fosse uma tribuna livre onde se pudessem discutir até as últimas conseqüências os problemas do homem. Mas, não é. E eu não tenho sossego. Meu espírito, que há um ano atrás se ardia de angústia quando, sem trabalho, eu andava pelos bares à noite vendendo meus livros pra sobreviver, agora se angustia mais ainda.

Eu preciso andar. Estar junto mais do que nunca com a gente minha, com os meninos, com os que estão chegando, com aqueles que deixam sob suspeita todos os que fazem sucesso, todos os que parecem vencedores. Por isso, não vou à França, nem à Espanha, nem ainda fui ao Rio de Janeiro abraçar o Juca de Oliveira e o Loureiro. Vou a Mococa, que é lá que eu bebo na fonte, vou a Orlândia, que é lá que eu me renovo, vou a São Sebastião do Paraíso, onde eu me faço mais eu, vou a Tambaú, onde me inquieto, vou a Viçosa de Minas Gerais, saber da gente minha. Longe das pompas, eu quero sempre me encontrar com o povo. Eu falo e ouço e me encho de fé sabendo que a cada momento em que o povo brasileiro sonha com justiça, com a divisão dos pães, significa que mais cedo ou mais tarde nos respeitaremos por isso, que é essa nossa crença.

Maldito seja eu e que escarrem no meu nome, se algum dia eu deixar de ir ao encontro dos que vêm a mim, por preguiça ou apodrecido pelo sucesso. Que me desprezem se eu achar que algum lugar dessa pátria que eu amo é longe de onde eu moro. Não me deixem sozinho agora que estou com mais do que mereço, meus amigos e irmãos. Superem meu temperamento difícil, meu modo agressivo e não me deixem sozinho. Agora, mais do que nunca, eu preciso dos perdedores do meu lado, preciso dos encarcerados, dos perseguidos, preciso dos cassados e dos impedidos de participar da vida nacional. Preciso dos que anseiam por justiça e dos desesperançados.

Preciso dos famintos e dos enfermos. Preciso dos meus fantasmas de sempre. Porque eu não quero nada sem estar com eles. Nem Paris, nem Madri, nem nada. Nem o dinheiro, nem os aplausos, nem o retrato no jornal. Eu quero a liberdade de expressão no território brasileiro. Eu quero a dignidade para o homem brasileiro. Eu quero o trabalho com remuneração que dê para todos os homens adquirirem seu pão, seu teto, seu fogo, seu livro. Eu quero o respeito pela manifestação espontânea do povão sempre lesado e marginalizado da sua própria história.

Não me deixem, portanto, sozinho, nesse momento em que meu trabalho rompe barreiras e dá alguns frutos. Eu não quero esses frutos e tenho que achá-los sempre amargos, enquanto não houver justiça, liberdade de expressão no solo onde criarei meus filhos. Não me deixem sozinho, não me tratem com deferências, não me dêem o melhor lugar à mesa. Pelo amor de Deus de nossa fé, não me deixem sozinho, não deixem que eu me perca de mim mesmo. E assim, um dia, quando o sol raiar e houver festa do povo nas ruas da agora triste Aldeia do Desconsolo, eu possa ser a única coisa que queria ser de verdade: um saltimbanco.

Artigo não publicado à época, proibido pela Censura.

Jornal do Plínio Marcos · Última Hora · 21/4/1974

Se um povo perde a confiança na sua polícia

Coluna diária de Plínio Marcos

Outro dia acharam um cadáver no meio da rua. Isso não é novidade. Mas no bolso, além de um cruzeiro e cinqüenta centavos, havia uma oração que dizia assim: “Caboclo Boiadeiro, me livre da polícia que ela anda pior que o diabo”.

Agora eu pergunto: se um povo perde a confiança na sua polícia, o que acontece? Foge? Se arma pra poder resistir? Sabe como é. O pavor transforma as pessoas. Todo valente que eu vi morrer acabou na mão de um covarde aterrorizado. E é assim que a população está ficando. Não confia na polícia, tem medo dela e dos bandidos.

Ler o texto integral

Outro dia acharam um cadáver no meio da rua. Isso não é novidade. Mas no bolso, além de um cruzeiro e cinqüenta centavos, havia uma oração que dizia assim: “Caboclo Boiadeiro, me livre da polícia que ela anda pior que o diabo”.

Duas mocinhas, empregadas domésticas no Rio de Janeiro, tiveram folga e foram passear. Passearam até ficarem sem dinheiro. Aí, viram que era tarde. E foram pedir auxílio num posto policial. Contaram a história do passeio e foram curradas pelos policiais. Dá pra entender? Tu se sente a perigo, chama a polícia e a polícia, em vez de te socorrer, te barbariza. Ainda no Rio de Janeiro, moradores de uma favela se viram no papo-de-aranha com um tal de Paulo Sapo e com um tal de Baianinho, que sem a menor cerimônia cobravam taxa de proteção dos favelados. Procuraram a polícia e não adiantou. A polícia se fechou em copas. Claro que o Paulo Sapo e o Baianinho souberam das reclamações e, pra dar exemplo, mataram dois ou três. Aí, os apavorados favelados não chamaram a polícia. Juntaram seus trecos e mudaram do morro. Fugiram de medo dos bandidos. Fugiram por não confiarem na polícia.

Agora eu pergunto: se um povo perde a confiança na sua polícia, o que acontece? Foge? Se arma pra poder resistir? Sabe como é. O pavor transforma as pessoas. Todo valente que eu vi morrer acabou na mão de um covarde aterrorizado. E é assim que a população está ficando. Não confia na polícia, tem medo dela e dos bandidos. Aí, se arma na retranca e o clima fica tenso. Cada um, cada um. E de repente estão todos se matando.

Esses casos que eu contei se deram no Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa. Mas em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e em qualquer canto a catimba é a mesma. O povo não confia na polícia. E isso é mau. Muito mau. É necessário que se mude essa imagem. Porém (e sempre tem um porém) essa mudança tem que começar dentro da própria polícia. E não basta apenas a expulsão dos maus elementos dos quadros da polícia. É preciso que eles nem entrem na corporação.

Respondendo à freguesia. Alair de Almeida, Sorocaba: “Leitor assíduo da sua coluna, tenho com satisfação notado que você está atacando com mais energia ultimamente. Continue assim.” Podes crer, Alair. Eu faço o que posso. Não é fácil remar a catraia em águas barrentas e contra a maré.

Coluna Navalha na Carne · Última Hora, SP · 2/5/1969

Lincoln só queria a igualdade dos homens

Coluna diária de Plínio Marcos

Meus cupinchas, são muitos os pererecos que servem pra provar que nos tempos que correm o homem não é parceiro do homem. Mas o que mais me atucana a cuca é a presepada que o canal 5 está armando. Eles vão montar A Cabana do Pai Tomás em forma de novela. E o Tomás, que é um personagem negro, vai ser vivido por um ator branco. Vão tingir o panaca de preto.

Meus cupinchas, A Cabana do Pai Tomás é um romance contra a nojenta escravidão. Enquanto isso, uma curriola de bons atores crioulos, de valor provado, fica pegando as rebarbas das quebradas da vida.

Ler o texto integral

Meus cupinchas, são muitos os pererecos que servem pra provar que nos tempos que correm o homem não é parceiro do homem. Mas o que mais me atucana a cuca é a presepada que o canal 5 está armando. Eles vão montar A Cabana do Pai Tomás em forma de novela. E o Tomás, que é um personagem negro, vai ser vivido por um ator branco. Vão tingir o panaca de preto. Vão deixar uma curriola de bons atores crioulos fazendo papel de esparro. O Sérgio Cardoso é o cara que vai se prestar ao triste papel de se pintar de preto pra fazer o Tomás. E vai, na mesma novela, fazer mais dois outros papéis. O de Lincoln e um outro branco. Enquanto Samuel, Dalmo Ferreira, Benê Silva, Milton Gonçalves, Antônio Pitanga, Carlão Caxambu e tantos outros atores negros, de valor provado, ficam pegando as rebarbas das quebradas da vida.

Meus cupinchas, A Cabana do Pai Tomás é um romance contra a nojenta escravidão. E vai servir, na bolação dos majuras do canal 5, pra amesquinhar patrícios nossos. Lincoln foi um grande homem que foi assassinado covardemente. Foi a medalha que lhe deram por querer a igualdade dos homens. Lincoln vai ser representado por um ator que não tem nada a dizer sobre o humanismo.

Meus cupinchas, me vem na memória o Rubens Campos, um bom crioulo com um talento raro, que morreu com vontade de comer. Sem trabalho. Aguentou os seus últimos tempos mastigando o amargo e nojento pão da caridade. Enquanto num palco de São Paulo um branco tingido de preto faturava palmas, flores, dinheiro, vivendo Otelo.

Meus cupinchas, não cabe uma besteira dessa no Brasil. Nós aprendemos isso com nossos pais, com nossos mestres: “Todos os homens são iguais.” Que interessa a verdade dos livros, os conselhos sábios, se no dia-a-dia é tudo uma caca?

Meus cupinchas, os atores negros certamente vão engolir essa jogada cavernosa. Mas que, que manjo bem os meus chapas negros, sei como estão machucados. E não aguento mais. Boto a boca no trombone pra berrar por meus irmãos negros. Chegou a hora de serem libertados da escravidão. Dar chance igual a todos. Não podemos permitir que no Brasil que a gente ama se faça uma afronta à dignidade humana. Vamos protestar com energia. Essa pornografia não pode ir ao vídeo. Essa imoralidade não pode invadir os lares.

Meus cupinchas, os atores negros sabem como seria ridículo eles se pintarem de branco, no Brasil, para viverem o papel de Lincoln, que eles tanto amam. Eles só querem fazer o Tomás. Mostrar que têm talento. E isso não é racismo. É um direito do homem de cor.