Coluna Plínio Marcos · Folha de São Paulo · 23/7/1977
Um saltimbanco em busca do seu povo
Coluna diária de Plínio Marcos · artigo não publicado à época, proibido pela Censura
As cartas que me chegam são sempre importantes, são dos amigos, são as boas notícias de que há gente nesse mundo que acredita no que fazemos. De Paris, chega a confirmação de que Dois perdidos numa noite suja estréia mesmo lá em setembro. No Rio de Janeiro, o Juca de Oliveira e o Oswaldo Loureiro lotam o Teatro Opinião com Dois perdidos.
Tudo isso seria muito bonito, se o palco brasileiro fosse uma tribuna livre onde se pudessem discutir até as últimas conseqüências os problemas do homem. Mas, não é. E eu não tenho sossego. Por isso, não vou à França, nem à Espanha. Vou a Mococa, que é lá que eu bebo na fonte; vou a Orlândia, que é lá que eu me renovo. Longe das pompas, eu quero sempre me encontrar com o povo.
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As cartas que me chegam são sempre importantes, são dos amigos, são as boas notícias de que há gente nesse mundo que acredita no que fazemos. De Paris, chega a confirmação de que Dois perdidos numa noite suja estréia mesmo lá em setembro. Em Madri, na bela Espanha em que o nosso querido García Lorca gostaria de viver os seus romances gitanos, hoje a caminho de seu grande destino democrático, depois que a nuvem obscurantista do despotismo de Franco passou, me mandaram avisar que Navalha na carne será encenada lá. Entre os dramaturgos do povo, numa parede do Berliner Ensemble, um amigo brasileiro que esteve na Alemanha leu meu nome e me escreve comovido. No Rio de Janeiro, o Juca de Oliveira e o Oswaldo Loureiro lotam o Teatro Opinião com Dois perdidos e o Luiz Gustavo e a Sílvia Falkenburg se preparam para montar Quando as máquinas param.
Aqui em São Paulo, O poeta da vila e seus amores fica todas as noites a três de alto, com gente se agarrando pelos picos pra não espirrar pelo ladrão. E o meu livro Inútil pranto, inútil canto pelos anjos caídos sai pela Editora Lampião, no começo do mês que vem. Tudo isso seria muito bonito, se o palco brasileiro fosse uma tribuna livre onde se pudessem discutir até as últimas conseqüências os problemas do homem. Mas, não é. E eu não tenho sossego. Meu espírito, que há um ano atrás se ardia de angústia quando, sem trabalho, eu andava pelos bares à noite vendendo meus livros pra sobreviver, agora se angustia mais ainda.
Eu preciso andar. Estar junto mais do que nunca com a gente minha, com os meninos, com os que estão chegando, com aqueles que deixam sob suspeita todos os que fazem sucesso, todos os que parecem vencedores. Por isso, não vou à França, nem à Espanha, nem ainda fui ao Rio de Janeiro abraçar o Juca de Oliveira e o Loureiro. Vou a Mococa, que é lá que eu bebo na fonte, vou a Orlândia, que é lá que eu me renovo, vou a São Sebastião do Paraíso, onde eu me faço mais eu, vou a Tambaú, onde me inquieto, vou a Viçosa de Minas Gerais, saber da gente minha. Longe das pompas, eu quero sempre me encontrar com o povo. Eu falo e ouço e me encho de fé sabendo que a cada momento em que o povo brasileiro sonha com justiça, com a divisão dos pães, significa que mais cedo ou mais tarde nos respeitaremos por isso, que é essa nossa crença.
Maldito seja eu e que escarrem no meu nome, se algum dia eu deixar de ir ao encontro dos que vêm a mim, por preguiça ou apodrecido pelo sucesso. Que me desprezem se eu achar que algum lugar dessa pátria que eu amo é longe de onde eu moro. Não me deixem sozinho agora que estou com mais do que mereço, meus amigos e irmãos. Superem meu temperamento difícil, meu modo agressivo e não me deixem sozinho. Agora, mais do que nunca, eu preciso dos perdedores do meu lado, preciso dos encarcerados, dos perseguidos, preciso dos cassados e dos impedidos de participar da vida nacional. Preciso dos que anseiam por justiça e dos desesperançados.
Preciso dos famintos e dos enfermos. Preciso dos meus fantasmas de sempre. Porque eu não quero nada sem estar com eles. Nem Paris, nem Madri, nem nada. Nem o dinheiro, nem os aplausos, nem o retrato no jornal. Eu quero a liberdade de expressão no território brasileiro. Eu quero a dignidade para o homem brasileiro. Eu quero o trabalho com remuneração que dê para todos os homens adquirirem seu pão, seu teto, seu fogo, seu livro. Eu quero o respeito pela manifestação espontânea do povão sempre lesado e marginalizado da sua própria história.
Não me deixem, portanto, sozinho, nesse momento em que meu trabalho rompe barreiras e dá alguns frutos. Eu não quero esses frutos e tenho que achá-los sempre amargos, enquanto não houver justiça, liberdade de expressão no solo onde criarei meus filhos. Não me deixem sozinho, não me tratem com deferências, não me dêem o melhor lugar à mesa. Pelo amor de Deus de nossa fé, não me deixem sozinho, não deixem que eu me perca de mim mesmo. E assim, um dia, quando o sol raiar e houver festa do povo nas ruas da agora triste Aldeia do Desconsolo, eu possa ser a única coisa que queria ser de verdade: um saltimbanco.
Artigo não publicado à época, proibido pela Censura.

